Quarta-feira, Agosto 10, 2005

Moscas, sapos e afins

Desde que cheguei em casa, por volta das duas da tarde, venho me controlando pra não escrever aqui. Esperei a vontade passar. Esperei que as idéias deixassem a casa da mente. Ocupei o tempo com outras coisas pra que as minhas mãos se controlassem. Li o jornal e, na leitura, senti falta das palavras gostosas. Fui procurar o Chico. Li Chico, ouvi o Chico. Servi-me de um banquete de imagens sonoras, imagens textuais e imagens imaginadas.
Naturalmente, aconteceu o contrário do que eu esperava. Ao invés de controlar a inquietude das minhas mãos, perdi o controle. Aliás, hoje eu perdi o controle de tudo, desagüei, explodi. Estou leve. Mas isso não vem ao caso. Interessa é que não resisti à tentação de escrever e, como já se pode perceber há algum tempo, cá estou.
Explico antes porque é que não queria vir aqui. Não queria vir porque eu, quando palavra, estou nua. Não tenho vergonha dessa nudez. Mas fato é que ela expõe aquilo que nos é íntimo. Nosso, unicamente nosso. Expor o que somos, despir-nos, significa dar a cara à tapa, estar sujeito ao julgamento alheio. É deixar que o outro nos penetre e, também, penetrar o outro. Estar nu como falo é quase como fazer amor com um estranho.

Hoje, percebi o quanto a comunicação é sempre imperfeita. E, em certas horas, quanto mais tentamos precisar a linguagem, mais vago se torna aquilo que queremos dizer. E é difícil chegar no outro, tocar o outro. É difícil entender que o outro, na maioria das vezes, quando compreende integralmente, ou quase que integralmente, aquilo que queremos dizer, não reage da maneira que nós reagiríamos quando em seu lugar. Aliás, o outro nem age nem reage como nós diante de uma mesma situação. Talvez porque nunca duas pessoas estejam, em todos os sentidos, na mesma situação. O contexto depende do olhar. E o olhar nosso não é o olhar do outro, pelo simples fato de que o outro é nada mais nada menos que o outro. E, portanto, alheio. O outro não nos pertence. E é por pensar assim que, para mim, a conquista do outro, no sentido de tocá-lo da maneira como quero, é eterna.
Ouvi dizer que devo viver apenas as horas boas e dormir quando acontecem coisas ruins. Isso porque, dormindo, o meu cérebro pára de funcionar. E porque eu renasço cada dia de manhã, renasço despida das lembranças ruins. Olha como sou um ser inteligente! O meu cérebro seleciona apenas o que me faz feliz, e joga fora o que me faz triste. Ele faz isso enquanto durmo... mas... o cérebro não pára de funcionar quando durmo? Então, como ele faz essa seleção? Então? Então? Então? Quando ele varre os lixinhos da alma? Como ele filtra meu coração se, quando meu coração sossega, no sono, meu pensamento congela? Eu não entendo. Mas isso é o que ouvi dizer. Essa é a lógica do outro. E o outro não sou eu. O outro não é meu. O outro é e sempre será um eterno mistério, um mistério que sempre despertará a minha curiosidade. Essa curiosidade cultivarei, ainda que tenha que faze-lo em silêncio, ainda que não possa dividi-lo com o outro. Porque o desejo de tocar o outro é parte de mim. Não nego a individualidade do outro. No entanto, da mesma maneira, não nego meu desejo de coletivo.
No meu fotolog, pûs no título a seguinte frase: “Há coisas que melhor se dizem calando”. Foi Machado quem disse. E eu repeti, porque concordo com ele. Mas, hoje, aprendi que há também coisas que não são para serem ditas. São para ficarem dentro de nós. Seja para que brotrem, cedo ou tarde; seja para que morram apenas. Acho que era isso que o ditado queria nos dizer. “Em boca fechada, não entra mosca”.

Sexta-feira, Agosto 05, 2005

Sobrevida

Este blog quase morreu um dia desses. Não estava me servindo pra nada, começava a atrapalhar. Mas tive pena de mata-lo, mesmo assim. Tem caquinhos de mim espalhados por aqui. Resolvi deixa-lo sobreviver por mais uns dias. Durante a deixa, surgiu uma nova necessidade de postar. Vim aqui. E isso significa que essas minhas considerações sobre o nada vão continuar agonizando no mundo virtual, ao menos por alguns dias mais.

Ando com uma vontade incontrolável de deletar as coisas antigas. E isso inclui tudo o que há de antigo em mim. Digo o antigo que não se renova. Porque esse antigo cansa. E acaba por nos enterrar vivos.

Saudade das aulas, elas sempre me trazem boas idéias, boas palavras. Semana que vem começa a minha rotina, a minha vida pendular. Tenho a impressão de que estive congelada durante um mês. Essa coisa de férias atrofia a gente. Eu sei, eu sei que logo, muito em breve, vou vir aqui reclamar da falta de tempo pra mim, vou querer explodir o relógio. Mas, por ora, o tempo que tenho tido não me rendeu muita coisa. Apenas aguçou minha incrível habilidade de inventar a realidade, de viver num mundo a parte. As minhas conclusões, as minhas impressões... quando minhas, e só minhas, elas atrapalham... e muito!
Aqui sou eu, afogada na minha hipersensibilidade.

Quarta-feira, Julho 27, 2005

Azul

Não fazia parte dos meus planos atualizar isso aqui hoje. Entrei na net pra atualizar o fotolog. É muito mais fácil mantê-lo que manter um blog. Não acho que uma imagem valha mais que mil palavras, não. Mas é certo que a foto é um texto mais rápido de ser ler, linguagem expressa que expressa tudo de uma só vez. No meio das mil possibilidades que a internet oferece aos navegantes, um fotolog requer menos tempo para ser lido que um blog. Blog ocupa tempo, demanda paciência e não descansa os olhos. O texto tem que ser interessante porque, senão, o leitor abandona. A foto... a foto não dá tempo de abandonar, ela não deixa opção. Basta olhar, piscar os olhos, e ela já está dentro de você. E você dentro dela.
Bom, mas não era sobre isso que eu ia falar. Falei do fotolog porque, depois que postei, aproveitei pra espiar os outros flogs e, numa dessas espiadas, vi uma foto do céu. De cara, veio na cabeça aquela música da Marisa Monte (não me lembro se a letra é dela também), que diz "O céu vai tão longe e está perto, o céu fica em cima do teto... o céu serve a todos, o céu ninguém pode pegar". E isso me fez pensar o céu como um terreno democrático.
Não sei que importância tem esse pensamento meu. Mas sei que ele, por sua vez, me fez lembrar a música do Chico com o Milton: "Como então? Desgarrados da terra?Como assim? Levantados do chão?". A quem não tem a terra, resta o céu. Porque o céu é de todos. Mas, dele, ninguém pode tomar posse.
O que eu pensei enquanto escrevi isso (leia-se considerações absolutamente dispensáveis):
O céu é de todo mundo. Nós temos a planta dos pés na Terra e todo o resto do corpo no céu, mas não nos damos conta disso. Pensando dessa maneira, se o céu é acima do chão, um pulo é um vôo. Se eu pulo, eu posso voar. E você também.
Dizem que Deus mora no céu. Se nós também temos nossa maior parte no céu, o que nos difere Dele é a lei da gravidade. Ele flutua. E nós caímos. Anjos caídos...

Quinta-feira, Julho 21, 2005

Perda de memória ou perda de tempo

Ando meio esquecida. Sabe que agora há pouco eu pensei em como começar um novo post, mas, no curto tempo que levei pra abrir o Word, a idéia fugiu. Isso tem acontecido comigo com bastante freqüência. Hoje mesmo, enquanto arrumava a mala, transitando entre o monte de roupas separadas na cama e o guarda-roupa, fiquei parada, olhando os cabides, várias vezes, pensando, tentando lembrar o que eu ia pegar mesmo. Não acredito que seja a idade, não, eu sou relativamente nova. Talvez sejam as férias. O ócio deve estar deixando atrofiada a minha mente. Assim sendo, é bom exercita-la aqui. E não vá rir do meu exercício.
Como eu não lembro bem o que ia dizer, melhor sair dizendo. Quem sabe até o final do post eu recorde a minha idéia perdida que, se perdi, talvez seja porque não tinha mesmo muita importância. Ah, lembrei – e juro que só lembrei agora. Eu ia falar da sensação de estar vivendo pra trás. As coisas estão voltando a ser como eram, e eu começo a acreditar que a vida não é mesmo uma linha reta. É ciclo. Altos e baixos. Tempo corrosivo, passado como eterno presente.
Isso pode não ter muita importância, mas, enfim, afeta, pelo o menos a mim. E afeta bastante. Parece é que alguém pôs o tempo pra malhar numa daquelas esteiras de fazer ginástica. O tempo não pára, Cazuza, é verdade. Mas também não sai do lugar. Anda, anda... e não sai do lugar. Como eu aqui, rodeando nessas linhas, sem dizer nada de concreto, sem me mostrar de fato.
Às vezes eu penso que criei um blog mais pra me esconder do que pra me mostrar. Tenho a impressão de que digo tudo pela metade. Seria tão mais fácil se eu contasse o que fiz hoje, o que vou fazer amanhã. Mas, não... eu fico sempre querendo tratar do que está aqui dentro. Falar sobre o que eu não sei. E não entendo.
Eu devia é ser mais prática. Mas, não, eu não sei ser prática. Nasci complicada. E complicando.
Falar “eu não sei” é tão cômodo. Logo eu, que critico tanto o comodismo. Eis-me aqui, acomodada. Sem atitude. Imobilizada por um nó na garganta.

Quarta-feira, Julho 20, 2005

Pingente

Disse que vinha, mas não vim. Nem “amanhã”, nem depois, depois. Bom, agora estou.

Hoje é dia do amigo. E seria fácil viver hoje, se ontem eu não tivesse aberto a gaveta onde eu e mais alguém guardamos uma amizade eterna. A eternidade de dias contados, a eternidade desesperada, a eternidade na corda bamba.

Nunca consegui entender por quê tudo sempre foi tão estranho entre a gente. Tão estranho e tão forte. Forte a ponto de nos perguntarmos se éramos mãe e filha, quem sabe irmãs, na última encarnação. Forte a ponto de procurarmos saber se uma alma, na vida seguinte, poderia se partir em duas. Forte a ponto de nos reconhecermos como caquinhos da mesma alma. Independente da viabilidade das nossas hipóteses, fato era que fazíamos parte da mesma coisa. Éramos pedaços de nós mesmas que compunham um mosaico. Um desenho pra não se ver. Um desenho pra se sentir.
Éramos um poço de desespero compartilhado. Éramos um álbum de dores. Mas éramos também consolo, cumplicidade, conforto. Porque éramos comprimido de farinha. E éramos o papel amassado que ainda guardo até hoje e que qualquer dia te mostro. Éramos paz. Éramos ciclo eterno entre vida e morte. Éramos um fio.
Sei lá o que éramos. Mas, seja lá o que fossemos, éramos de mãos dadas.
Eu não sei o que aconteceu. Não acho que sejamos outra coisa. Acho é que escondemos o que somos – o que fomos. Pusemos numa gaveta da alma e acabamos como Salvador Dali.
Não, nós não acabamos. Nós tiramos um cochilo. Uma soneca. Foi só isso. Porque ontem eu vi quando você abriu os olhos e mostrou, ao olhar, o que ainda somos. Mas a gente logo voltou a dormir.
Não vou desistir de acordar.
Um dia, quem sabe, a gente se encontra (de verdade). E eu não vou ter vergonha, sabe por que? Ainda tenho um pingente. E se você não tiver, não tem problema. Eu te ajudo a procurar. Quem sabe durante a procura a gente desperta por completo.
Eu me pergunto se você vai se reconhecer aqui. Pergunta besta, né? Bom, então, se você vier... desculpa qualquer coisa, só pra não perder o hábito. Não esquece que você faz falta. E que carrego essa falta comigo.

Sexta-feira, Julho 15, 2005

Retorno ao cais

Vai fazer três meses que eu não passo por aqui... quanto tempo, ne? Alguém passou por aqui enquanto eu estive fora? Imagino que não, mas, de qualquer forma, peço desculpa aos possíveis navegantes que tenham encontrado a porta fechada, o cais abandonado.
Não vou dizer que faltava tempo, não. Até andei meio atarefada nesse período, mas só em alguns momentos. Também não vou dizer que foi preguiça. Eu até fiz algumas colchinhas de palavras. Só não quis de postar. Ou não lembrei de postar.
Agora, de férias, a falta do que fazer com o tempo me cutucou e apontou esse espaço vazio, carente de nova publicações. Aí, vim aqui pra falar...
Então, eu falo.
Falar? Ah.... falar o que? O que eu tenho pra dizer agora? Por que é que eu tenho que dizer alguma coisa? Tô a fim não...
Deixa eu acordar esse blog assim, de mansinho, sem fazer muito barulho. Que é pros textos que dormem aqui não se assutarem. Vai que eles saem correndo. Já me bastam as palavras que não vêm. Não quero que as que já estão aqui vão embora.
Amanhã eu volto. Amanhã ou depois. Eu volto, volto mesmo. E, quando eu voltar, posso até contar uma história.
Até!

Sexta-feira, Abril 22, 2005

How could you watch me cry?

Eu não queria mesmo flores
Nem que o telefone tocasse
Nem que me pegasse no colo
E me rodasse no ar
E me mostrasse a lua
De um dia nublado
Da noite sem lua
Na minha eterna escuridão

A minha eterna escuridão,
O escuro em que saltei.
Sozinha.

Eu queria...
Deixa pra lá.
Eu não queria nada mesmo.